01
FEV
2015

Crónica de uma queda anunciada, ou talvez não!

Posted By :
Comments : 0

O reservatório da praça e a “visão” que nós temos dele! (*)

Os novos ciclos políticos também se fazem de novas visões e de novas estratégias. Até aqui estaremos todos mais ou menos de acordo, uns mais de acordo que outros, mas ainda assim, de acordo!
De um lado diametralmente oposto desta questão estão as opções que não se compadecem com políticas ou com visões, são questões práticas, ou questões técnicas se assim lhes quisermos chamar!

Mas há, ainda assim, um terceiro vértice (uma outra variável), o custo. O custo da visão antiga, o custo da nova visão, ou o custo da mudança de visão e, concomitantemente, o benefício que resulta da assunção de cada uma delas!

Apliquemos então esta tese a um caso prático da nossa cidade:

O reservatório da praça e a visão que nós temos dele!

Factos concretos – parte I

  • A infraestrutura não tem resistência sísmica, o que, face à sua idade, e estado de conservação constitui um risco grave para pessoas e bens;
  • Destaca-se na linha da cidade pela sua presença;
  • É fundamental para o abastecimento de água a grande parte da cidade, devido sobretudo à sua função ao nível do equilíbrio de pressões;
  • É eficiente do ponto de vista energético, já que se substitui a necessidade bombagem permanentemente para o setor da rede de águas que serve;

 

Factos concretos – parte II

  • Contem no seu interior uma escada de características arquitetónicas interessantes;
  • É constituído por três patamares visitáveis que conferem, cada um deles, vistas diferentes e únicas sobre a cidade;
  • Constitui um ponto de excelência para observação da beleza da cidade e da sua zona envolvente;
  • Permitiria uma visão global e integrada do futuro Museu Vivo e seria parte integrante do Centro de Arqueologia e Artes;
  • A possibilidade de usar a o reservatório como miradouro encarece a obra em cerca da 10% relativamente ao seu valor total;

Desenvolvimentos verificados – no passado

  • A anterior administração lançou um concurso público para a realização da empreitada;
  • O projeto de reabilitação da sua estrutura, criação de resistência sísmica, revestimento exterior em cortiça (elemento de ligação à história da cidade e da região), iluminação e pequena intervenção no interior para permitir que seja visitável e utilizado como miradouro, foi realizado.
  • Um empreiteiro ganhou e a obra foi-lhe adjudicada pelo anterior executivo há mais de um ano;
  • A única formulação legal para iniciar a intervenção seria a consignação da empreitada;
  • O setor da rede de águas onde o reservatório se íntegra estava como próxima prioridade no plano de investimento da anterior administração, já com projeto de execução em fase avançada;
  • O reservatório com a sua nova roupagem seria parte integrante do Centro de Arqueologia e Artes pelo que, para além de visitas autónomas seria “utilizado” pelos visitantes do Centro e do Museu Vivo;
  • Complementarmente estava previsto que fosse um polo de dinamização do projeto Heróis da Água que compreendia a criação de um Centro de Educação Ambiental com várias atividades pedagógicas para toda a comunidade escolar, centradas também nesta infraestrutura.
  • A sua função principal e única é ser reservatório;
  • As outras utilizações são mais-valias, complementos que nunca, por si só, conduziriam à construção de uma infraestrutura desta natureza;

Desenvolvimentos verificados – no presente

  • O executivo em funções ignorou tudo isto e muito mais e ameaçou demolir;
  • Apenas ameaçou demolir, apenas isso.

E o futuro?

Há pelo menos duas alternativas, não enjeitando, à partida, a possibilidade de haver mais.
Novamente penso que todos concordamos que nunca se faria uma obra destas, de raiz, para ser um miradouro, alguém querer passar essa mensagem é simplesmente ridículo, mas sim, houve quem o tentasse fazer!

Na hipótese 1, a filosofia de base é, com um pequeno investimento, marginal relativamente ao custo da reabilitação para a função principal, criar um ponto de interesse adicional para a cidade, isto porque a reabilitação, o reforço da estrutura e a resistência sísmica terão que ser feitos de qualquer forma, ou então, assume-se a hipótese 2, a sua demolição, já que o reservatório não pode continuar tal como está, porque simplesmente, pode ruir.

Na hipótese 2, procede-se à sua demolição, equacionando os custos com a própria demolição e remoção das dezenas de toneladas de betão de um local de difícil acesso, somando ainda os custos com alterações de fundo necessárias à rede de água daquela zona da cidade, baseada num equilibro de pressões muito frágil;

A hipótese 1 destina-se a manter a base inicial e a reabilitar a sua estrutura, conferindo estabilidade, criando capacidade de resistência sísmica e promovendo a requalificação exterior. Complementarmente maximiza-se a intervenção para acrescentar valor à cidade e dar uma nova função a algo que permaneceria inerte na malha urbana, ganhando uma nova vida e uma nova função. A hipótese 2 destina-se a quê?

Comparativamente: hipótese 1 vs. Hipótese 2

Sendo expetável que a demolição seja bem mais cara e envolva maiores riscos (até para os achados arqueológicos das zonas envolventes) que o custo de o requalificar mantendo, a sua função principal, tornando-o visitável, integrando-o no Centro de Arqueologia e Artes e colocando-o á disposição do Museu Vivo e dos “Heróis da Água” temos que: fica mais caro demolir e ficar sem nada do que intervir e ficar com tudo!

Rui Marreiros

(*) – (leia-se visão como a opinião que temos e não visão que temos dele visto cá de baixo ou a visão que temos se estivermos lá em cima)